Por que eu tinha que dar ouvidos aquelas nojentas das líderes de torcida. Todo mundo sabe que não podemos dar ouvidos aqueles lambisgoias. Peter e eu somos amigos desde sempre. Por sermos vizinhos, a nossa aproximação foi automática. No colégio, não saímos de perto um do outro. E não vou mentir, dizendo que não gostava da sua atenção ser só minha. Até hoje.
Chloe, você não acha que atrapalha muito o pobre Peter?!
Não entendi, Amber?
Ele só fica perto de você porque tem pena de deixar uma coitada como você sozinha. Sabia que a sua presença ao lado dele, não deixa que outra garota se aproxime? Ele pode se sentir incomodado.
Olha aqui, patricinha mimada. Eu sei que não não sabe nada da palavra verdadeiro, mas o Pet é meu amigo e se ele se sentisse realmente incomodado, ele falaria pra mim.
O Peter é um rapaz muito educado pra enxotar cachorro morto. Por isso, é melhor você se afastar dele.
Não quis mais esticar o assunto e fui embora, mas as palavras dela começaram a fazer sentido. Várias vezes ele recusava sair com as meninas que o chamavam pra sair, porque já havia marcado um compromisso comigo. E sem contar todas as vezes que ele dispensou outra garota, só pra me acompanhar no baile. Não posso deixar ele fazer isso esse ano.
Desde que nos conhecemos, hoje é o primeiro dia que não voltamos pra casa juntos. Meu peito se aperta muito ao pensar que ele realmente queria um espaço longe de mim, onde ele vai poder arrumar qualquer outra garota.
Subo as escadas correndo ignorando os chamados da minha mãe e antes que eu possa fechar a janela do meu quarto, Pet está deitado todo a vontade no meu tapete. Seu peito sobe e desce rápido, como se tivesse acabado de chegar.
- O que está fazendo aqui?! - Pergunto, jogando a mochila em cima da cama.
- A minha melhor amiga queria um tempo pra pensar. - Ele para, da uma respirada funda e continua. - Acho que já deu tempo dela pensar em tudo.
- A gente tá separado, não tem vinte e quatro horas, Peter. Deu tempo de eu pensar em quê?!
- Me diz você. Quem começou com o papo estranho, foi você. Espero que tenha uma resposta plausível pra me deixar sozinho no gramado daquele jeito. - Ele apoia o cotovelo no chão para ficar mais alto um pouco.
Peter cresceu muito nos últimos anos e isso fez com que eu prestasse muito atenção no seu corpo. Não queria ficar babando por ele, mas é impossível. Acho que eu me apaixonei por ele quando interpretou Aquiles, o semi deus grego. Passar a maior parte da peça sem camisa ajudou na minha imaginação fértil tenho certeza que a maioria das outras meninas também.
- Você não pensa em namorar, não?! Em se agarrar com uma garota nos corredores do colégio?! Ou um garoto, não sei?
- Penso em garota, sim. Mas acho que não consigo falar pra ela o que é preciso, porque só dizer que ele faz parte da minha vida e que eu já tentei me declarar pra ela, mas engasguei e quase morri, não é suficiente. Acho que palavra vai expressar de forma completa o que eu preciso que ela saiba. Por isso que ainda não falei nada pra ela. Mais um vou. - Ele encara o teto sonhador.
Antes que comece a fantasiar sobre quem pode ser a garota que não só faz parte da vida do meu melhor amigo, mas que ocupa esse espaço desde sempre, meu celular vibra com uma mensagem de Alisson, minha melhor amiga.
Sim, eu consegui ter outra amizade além de Peter. Isso é um avanço para mim.
- Alisson mandou uma mensagem dizendo que vai ter festa na casa daquele seu amigo, o Marcel.
- Legal. - Fala e se levanta de um pulo. - Ele disse que ia fazer mesmo, mas estava esperando os pais viajarem.
- Você sabia dessa festa desde quando?
- Ele convidou a gente, mas antes que eu conseguisse falar pra você, você começou a falar em faculdade e eu não tive a oportunidade. Vamos? - Pet estica a mão para mim e não posso negar, quando ele me lança o melhor e mais lindo sorriso que existe na fase da Terra.
***
Chegamos na casa do seu amigo e juro que nunca tinha visto uma casa tão chique. É grande e tem pessoas espalhadas por todos os lados.
- Tem uma piscina, Pet! - Falo empolgada.
- Tem. Pena que você não trouxe biquíni. - Seu olhar recaí sobre o meu corpo, fazendo um arrepio percorrer minhas pernas. É tão sutil, que talvez eu esteja imaginando.
Ele caminha para dentro da casa e cumprimenta algumas pessoas. Amber está lá, só de biquíni na borda da piscina e encara Pet como se ele fosse a última bolacha do pacote, mas não existe só ele na casa. Tento não pensar nisso.
Vejo Alisson do outro lado da mesa da cozinha e acena para mim. Vou até ela, que torce o nariz quando me aproximo.
- O que aquela azeda da Amber tá fazendo pendurada no Pet? - Ela cruza os braços e eu olho para eles.
Realmente, a garota parece um acessório preso no meu melhor amigo. Tento ignorar o nó que se forma no meu estômago.
- Não sei. - Dou de ombros.
- Você devia fazer alguma coisa. Não vai deixar essa coisa tirar o que é seu.
- Meu? Não temos nada. Ele é só meu amigo.
- Amigo? Conta outra história Chloe! O jeito que você olha pra ele, não é de amigo nunca. Sem contar o jeito como ele te olha. - Ela ergue as sobrancelhas.
- Sai dessa, Ali. A gente é só amigo mesmo.
- Vou te provar que não. - Ela sai até a piscina onde a maior parte das pessoas está. - Galera, que tal a gente relembrar os tempos de criança e brincar de verdade ou desafio?
- Eu topo. - Pet é o primeiro a se prontificar.
- Beleza. Verdade ou desafio?
- Desafio. - Vejo um brilho lindo em seus olhos.
- Te desafio a beijar a sua melhor amiga. Mas não é só um selinho. Eu quero um beijo de cinema.
- Fechado. - Ele me olha e caminha na minha direção. Não sei de onde ele tirou tanta confiança.
Peter se aproxima de mim e para a poucos centímetros do meu rosto.
- É só uma brincadeira. - Emoldura meu rosto com as mãos. - Relaxa. - E beija minha boca com vontade.
Sinto meu corpo derreter, meus músculos virarem gelatina e meu coração bate mais rápido do que se estivesse praticando algum esporte. Sua língua invade minha boca e sua mão muda de posição, indo para a base da minha coluna, fazendo pressão contra o seu corpo. Coloco minhas mãos ao redor do seu pescoço e me entrego. Esqueço que temos plateia e que era só um jogo bobo.
Tudo que consigo pensar é em como eu esperei por esse beijo. Mesmo fingindo não querer, mesmo negando, eu queria.
Agarro mais o seu pescoço e ele me ergue pela cintura, fazendo quase os nossos corpos se fundirem.
Ouço aplausos e gritaria ao nosso redor e Pet me coloca no chão, se afastando. Ele me encara com o maior sorriso que eu já vi.
- Viu? Você nem morreu. - Ele coloca uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.
- Você não devia ter feito isso! - Falo só para que ele ouça. O sorriso dele morre.
- Era um desafio da brincadeira, Chloe. Não precisa levar a sério. - Peter se afasta e me da as costas.
Assim, percebo que disse uma grande besteira.
- O que foi que aconteceu, amiga? - Alisson aparece do meu lado.
- Eu só falo idiotice. Desde pequena. - Coloco a mão na boca ainda sentindo-os formigar por causa do melhor beijo da minha vida.